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O sucesso do filme ‘O Agente Secreto’ na Argentina
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O sucesso do filme ‘O Agente Secreto’ na Argentina

Os títulos das reportagens na imprensa argentina sobre o filme brasileiro ‘O Agente Secreto’, destacam que esta é uma obra candidatíssima ao prêmio Oscar. “Kleber Mendonça Filho: o diretor brasileiro que pode fazer história no Oscar”, informou o Clarín em espanhol. “O Agente Secreto: o filme com um herói atípico que pode dar o segundo Oscar ao Brasil”, destacou o La Nación, também de Buenos Aires.

Em suas redes sociais, o produtor de cinema Axel Kuschevatzky, dos filmes argentinos ‘O Segredo dos seus olhos’, e ‘Relatos Selvagens’, elogiou a obra brasileira. Ele contou que viu todos os filmes que concorrem ao Oscar, mas indica preferência por ‘O Agente Secreto’. “Já assisti ao filme duas vezes e em cada uma delas vi novos ângulos, detalhes inesperados. É um filme mergulhado na sua própria lógica, mas que aborda de maneira poderosa a experiência de ter crescido na América Latina naquele período”, escreveu. Para ele, nenhuma resenha refletiu o que ele acabou assistindo no cinema.

O longa-metragem, que ocorre no contexto da ditadura militar brasileira e é retratado nos dias de carnaval no Recife, em 1976, tem como fio condutor a perseguição a um acadêmico (Armando, Wagner Moura).

Mas não é um filme com soldados nas ruas, notou Kleber Mendonça Filho na entrevista ao Clarin, falando de Los Angeles, nos Estados Unidos. Evidencia, porém, outros males daquele período – a censura à imprensa que leva à criação de lendas urbanas como ‘a perna cabeluda’, que é um dos símbolos do filme e que foi notícia nos anos 1970 na grande imprensa pernambucana.

A desigualdade de classes com uma patroa protegida pelas autoridades e a vítima, a empregada, desamparada. As mortes encomendadas. As fichas que acabavam rápido nos orelhões (telefones públicos). A música brasileira de então e o papel do rádio e do cinema – com filmes dos Estados Unidos, como O Tubarão, dirigido por Steven Spielberg, e a memória. Ou a falta dela num país que pretendeu virar a página da ditadura. E a atuação de Wagner Moura (o acadêmico, o que está na mira do matador e o que renasce como filho do protagonista inicial).

A trama vai além. A narrativa tensa e, algumas vezes, divertida, mostra várias faces do Brasil. Os excluídos não só economicamente, mas pela opção sexual que fizeram, como o jovem que foi acolhido por dona Sebastiana (Tânia Maria) ou pela violência masculina.

O filme foi lançado no ano passado no Brasil e só há poucos dias na Argentina.

Entre os que já viram a obra, como o produtor argentino Kuschevatzky, cresce a percepção que o melhor é assistir ao filme pelo menos duas vezes.

“Foi a segunda vez que assisti e agora gostei mais ainda”, afirmou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, à saída da projeção especial que foi realizada, nesta segunda-feira (2), pela Embaixada na sala de cinema da Associação Amigos do (Museu) de Belas Artes, no bairro da Recoleta. Nascido em 1960, Bitelli era adolescente na ditadura de Ernesto Geisel, que governou o país entre 1974 e 1979 e cujo foto na parede aparece em vários momentos da trama. O filme, disse Bitelli, o fez lembrar como era o Brasil daquela época.

Na sua fala para uma plateia de cerca de 200 pessoas, ele relembrou o contexto da ditadura brasileira e da lenda urbana da perna cabeluda. Antes da projeção especial, o professor de literatura brasileira da Universidade de Buenos Aires (UBA), Gonzalo Aguilar, observou que ‘O Agente Secreto’ é um filme sobre o passado, mas com referências do presente. Ele acrescentou: “O filme nos mostra que nas ditaduras convivemos com cadáveres”, disse Aguilar para uma plateia atenta e silenciosa.

E ainda notou a diferença do filme de Kleber Mendonça Filho com ‘Ainda estou aqui’, de Walter Salles, que ganhou o primeiro Oscar para o Brasil em 2025. “Ainda estou aqui é mais uma visão do Rio e de São Paulo e em O Agente Secreto os do sul/sudeste do Brasil são os ‘maus da história’”, disse Aguilar.

O presente, notou Aguilar, é, por exemplo, o afeto mostrado no filme. E também a violência contra as mulheres – que ele também notou ao assistir ao filme mais de uma vez. ‘O Agente Secreto’ é como um caleidoscópio. E a cada mirada descobrimos um detalhe, uma informação a mais – como o brasão do Brasil na farda dos policiais rodoviários ou como a perna (cabeluda ou não) está também no foco, como quando um homem que parecia se despedir da mulher no Instituto Médico Legal (IML) é obrigado a deixar o local por ordem dos policiais, que carregam uma perna, e dali sai puxando de uma perna ou quando um criminoso leva um tiro – na perna.

Mas 'O Agente Secreto' vai muito além destes detalhes. Ele também ressalta a solidariedade no refúgio liderado por Sebastiana e em tantas partes da trama. Por isso, merece os elogios e, quem sabe, o segundo Oscar para o Brasil.

A Argentina não está concorrendo ao prêmio. Seu filme Belém, dirigido e estrelado por Dolores Fonzi, baseado numa história real, não foi selecionado (ganhou, nesta semana, o Goya de melhor filme Iberoamericano).